Shiatsu: entre a tradição chinesa e o toque de Namikoshi

 

Shiatsu: entre a tradição chinesa e o toque de Namikoshi

 

Há terapias em que as mãos não servem apenas para tocar: servem para escutar. O Shiatsu é uma delas. Através da pressão dos dedos, das palmas e, em determinadas abordagens, de outras partes do corpo, esta prática procura estimular o organismo e favorecer um estado de equilíbrio e bem-estar.


Mas afinal, o que tem o Shiatsu a ver com a Medicina Tradicional Chinesa (MTC)? E onde entra o célebre Shiatsu Namikoshi?

 

Um diálogo entre Japão e China

 

 Apesar de o Shiatsu ser uma terapia de origem japonesa, a sua história está profundamente ligada à influência de práticas terapêuticas chinesas que chegaram ao Japão ao longo dos séculos.

 

A Medicina Tradicional Chinesa desenvolveu uma visão do corpo baseada, entre outros conceitos, na circulação do Qi, nos meridianos e na relação dinâmica entre diferentes funções do organismo. Na acupunctura, por exemplo, determinados pontos são estimulados através de agulhas. Nas técnicas manuais inspiradas nessa tradição, o estímulo pode ser realizado através do toque e da pressão.


O Shiatsu nasceu num contexto japonês diferente e desenvolveu a sua própria identidade. Por isso, é simplista dizer que Shiatsu e MTC são exactamente a mesma coisa. Existe, contudo, uma importante ponte histórica e conceptual entre as duas tradições.


É precisamente nessa ponte que encontramos uma das características mais fascinantes do Shiatsu: a ideia de que o corpo não deve ser visto apenas como um conjunto de partes isoladas, mas como um sistema no qual diferentes regiões e funções estão relacionadas.

 

O que significa “Shiatsu”?


A própria palavra japonesa ajuda-nos a compreender a essência da técnica: shi significa “dedo” e atsu significa “pressão”. Pressão, portanto, é a palavra-chave.


Mas pressão não significa força bruta. Um bom trabalho de Shiatsu depende da qualidade do contacto, da postura do terapeuta, da utilização do peso corporal e da capacidade de adaptar o estímulo à pessoa que está à sua frente.


O toque torna-se, assim, uma forma de comunicação. O terapeuta não trabalha simplesmente sobre um ponto ou músculo: procura perceber a resposta do corpo ao estímulo. A respiração, a tensão, a sensibilidade e a qualidade dos tecidos podem orientar a forma como a sessão é conduzida.

 

E o Shiatsu Namikoshi?


Quando falamos de Shiatsu, é impossível não mencionar Tokujiro Namikoshi, uma das figuras fundamentais na sua história moderna.


Namikoshi desenvolveu uma abordagem própria, conhecida como Shiatsu Namikoshi, procurando sistematizar o Shiatsu e estabelecer uma metodologia clara de tratamento.


Uma das particularidades desta escola é a grande importância atribuída à anatomia e à fisiologia ocidentais. Em vez de depender exclusivamente dos conceitos tradicionais de meridianos e Qi, o método Namikoshi estrutura a aplicação da pressão tendo em consideração estruturas anatómicas, nervos, músculos, circulação e respostas fisiológicas.


É aqui que surge uma distinção muito interessante. Enquanto determinadas escolas de Shiatsu utilizam mais explicitamente a linguagem energética dos meridianos e dos conceitos da MTC, o Shiatsu Namikoshi apresenta uma abordagem mais centrada na anatomia e fisiologia do corpo humano.


Não significa que uma abordagem seja necessariamente “mais correcta” do que a outra. Significa que existem diferentes formas de compreender e ensinar o Shiatsu.

 

O corpo entre dois mundos


Talvez uma das maiores riquezas do Shiatsu esteja precisamente neste encontro entre culturas.


De um lado, temos uma tradição oriental que durante séculos desenvolveu uma linguagem própria para compreender o equilíbrio do organismo, recorrendo a conceitos como Qi, meridianos e Yin-Yang. Do outro, temos a anatomia e a fisiologia modernas, que descrevem o corpo através de músculos, nervos, articulações, tecidos e mecanismos fisiológicos.


O Shiatsu japonês desenvolveu-se nesse espaço de diálogo. E o método Namikoshi é um excelente exemplo dessa aproximação: preserva a essência do toque e da pressão, mas organiza a prática através de uma leitura predominantemente anatómica e fisiológica.

 

O Shiatsu é mais do que “apertar pontos”


É comum imaginar o Shiatsu como uma sequência de pressões aplicadas em determinados pontos do corpo. Mas essa visão é demasiado limitada. O Shiatsu envolve presença, ritmo, postura, pressão e escuta corporal.


Uma pressão aplicada durante alguns segundos pode produzir uma experiência completamente diferente de uma pressão rápida. A direcção, a intensidade e a forma de contacto também alteram a resposta do corpo. É por isso que o Shiatsu é, antes de tudo, uma arte manual.


Duas pessoas podem receber a mesma técnica e responder de maneiras muito diferentes. O terapeuta precisa de adaptar o trabalho à pessoa, em vez de simplesmente executar mecanicamente uma sequência.


E muito importante, a experiência de uma sessão de Shiatsu proporciona à pessoa que a recebe uma sensação profunda de relaxamento e consciência corporal.

 


Afinal, MTC ou Japão?


O Shiatsu é japonês na sua identidade e desenvolvimento moderno, mas a sua história está ligada a uma longa circulação de conhecimentos terapêuticos asiáticos, incluindo influências chinesas. E o Namikoshi representa uma etapa particularmente importante dessa história: a tentativa de organizar o Shiatsu através de uma compreensão anatómica e fisiológica moderna, sem perder a importância fundamental do toque.


É justamente essa viagem, da China ao Japão, da tradição à sistematização, dos meridianos à anatomia, que torna o Shiatsu tão fascinante.


No fundo, talvez o Shiatsu nos ensine algo bastante simples: antes de tentar compreender o corpo, é preciso aprender a senti-lo. E, quando as mãos aprendem a escutar, o toque deixa de ser apenas pressão, torna-se comunicação.

 

 

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